Uma seita é, de modo geral, um grupo que se separou de um grupo religioso maior, passando a seguir crenças ou práticas desviantes. Muitas seitas são extremistas e agressivas em sua relação com as outras Igrejas e na conquista de novos adeptos. Elas têm como características a separação, a dissonância ou a contraposição em relação a concepções e práticas mais difundidas, historicamente afirmadas e reconhecidas, propondo-se como alternativa a elas.
As seitas surgem e se propagam com grande vitalidade. São um fenômeno alarmante especialmente na América Latina e na África. O termo seita, na América Latina, costumava ser aplicado a todos os grupos não católicos. Com o avanço do ecumenismo, o termo passou a ficar reservado aos grupos mais extremistas.
A história recente das religiões é marcada pelo fenômeno das seitas. Elas surgem e se propagam com grande vitalidade. Algumas são de natureza esotérica, outras têm suas raízes nas religiões da África ou da Ásia, e há também as que se originaram a partir de sua própria interpretação da Bíblia.
A palavra “seita” não é usada em todos os lugares com o mesmo significado. Na América Latina, por exemplo, o termo costumava ser aplicado a todos os grupos não católicos, mesmo quando pertenciam às Igrejas protestantes tradicionais. Mas com o avanço do ecumenismo, a palavra “seita” passou a ficar reservada aos grupos mais extremistas e agressivos. Para se referir a determinados grupos mais moderados, costuma-se usar a expressão “novos movimentos religiosos”, considerada mais neutra.
Na Europa Ocidental, a palavra seita tem uma conotação negativa. Já no Japão, as novas religiões de origem xintoísta ou budista são geralmente chamadas de seitas, sem nenhum sentido depreciativo.
A história das religiões oferece inúmeros exemplos de fragmentação e cisão de grupos religiosos das correntes majoritárias das grandes religiões. São as chamadas tendências sectárias.
Nesse sentido, o termo “seita” pode derivar do latim “secta”, que significa “cortada”, sendo a seita vista como uma dissidência, um pequeno grupo separado da religião principal. O termo pode derivar também do latim “sequor”, que significa seguir, caminhar atrás.
Assim, a definição geral de seita aponta para um “conjunto de pessoas que professam uma doutrina diversa da geralmente seguida”. Também assinala “um grupo de pessoas que se separa de uma comunhão principal ou de uma determinada religião”. Ou ainda: teoria de um mestre seguida por prosélitos (Dicionário Enciclopédico das Religiões).
As principais características de uma seita são: a) ruptura com a sociedade maior; b) obediência total a um chefe ou guru “carismático”; c) tendência ao segredo; d) emoção e afetividade mais do que raciocínio; e) militantismo ou proselitismo; f) culto caloroso; g) expectativa de intervenção divina.
Sendo um fenômeno de difícil definição exata, diante de suas várias modalidades, observam-se, no entanto, nas seitas, algumas características comuns (que são analisadas pelo Pe. Neno Contran MCCJ, em “Le défi des sectes en Afrique”, na revista “Le Christ au monde”, julho-agosto de 2000).
Essas características são: a) ruptura com a sociedade maior; b) obediência total a um chefe ou guru “carismático”; c) tendência ao segredo; d) emoção e afetividade mais do que raciocínio; e) militantismo ou proselitismo; f) culto caloroso; g) expectativa de intervenção divina.
a) Ruptura com a sociedade: geralmente a seita é fundada em oposição a ideias e práticas vigentes. Ela professa um radicalismo religioso, que pode significar intolerância, integrismo ou fundamentalismo. A seita apresenta-se como uma comunidade fechada, em que cada indivíduo depende do grupo.
b) Obediência ao chefe ou guru: a seita se ergue ao redor de um homem ou uma mulher que afirma ter dons particulares, especialmente na luta contra os poderes do mal, as dificuldades materiais, a desgraça, a depressão. Requer-se dos membros a submissão incondicional à direção do grupo (seja ao próprio chefe ou a seus representantes).
c) Tendência ao segredo: a vida interna da seita é sigilosa, fica mantida em segredo. Há uma forte vigilância dos membros da seita entre si e, eventualmente, vigilância do chefe ou guru sobre cada um.
d) Mais emoção, menos razão: o entusiasmo pelo chefe da seita é tal que pode chegar a cegar ou fanatizar os adeptos do grupo. Privilegia-se a emoção e a afetividade, em detrimento do uso da razão. Muitas vezes é um ambiente de forte pressão psicológica.
e) Militantismo ou proselitismo: estando o mundo sob o poder do Maligno, os membros das seitas tendem a angariar novos parceiros a fim de os salvar da perdição. Nesse sentido, há uma forte tendência proselitista. Conquistar novos adeptos também gera mais recursos financeiros para os grupos. São comuns exemplos de fundadores de seitas que enriqueceram rapidamente.
f) Culto caloroso: em algumas seitas os momentos de culto são prolongados. Pode chegar a haver transe e curas atribuídas ao poder divino. Podem-se suscitar estados mentais em que o raciocínio e a vontade ficam comprometidos.
g) Expectativa de intervenção divina: o fim do mundo ou o fim de uma era estaria próximo. Já que o mundo vai mal, o seu fim traria uma melhora. Assim se cria um clima de apavoramento e certo terror. No âmbito particular e pessoal, o fim de uma situação desfavorável também estaria próximo. Assim, há a promessa de resposta às pessoas que ali buscam solução para os seus males.
As seitas podem surgir de convicções de pessoas que acreditam ser portadoras de mensagens consideradas divinas, mas também podem mascarar interesses econômicos, políticos ou de exercício de poder e exploração. Elas se propagam oferecendo sentido de pertença, identidade, participação, segurança, espiritualidade. Utilizam diversas formas de recrutamento, entre elas a aproximação previamente estudada.
O surgimento e a propagação de seitas é um fenômeno comum na história das religiões. Grandes tradições religiosas como o cristianismo, o hinduísmo e islamismo sempre tiveram de lidar com tendências sectárias.
No cristianismo, escritos do Novo Testamento e dos Padres da Igreja (grandes teólogos dos primeiros séculos) abordam problemas gerados por grupos cindidos. Com o passar dos séculos, as tendências desagregadoras aumentaram. Sobretudo a partir da Reforma Protestante (sec. XVI), houve uma grande proliferação de grupos cristãos sectários.
Em 2006, o CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano) difundiu um estudo preparatório à Quinta Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano (Conferência de Aparecida, 2007), intitulado “Seitas e Novos Movimentos Religiosos”.
O artigo de abertura desse estudo – “Causas da deficiente resposta ao desafio das seitas e dos novos movimentos religiosos por parte da Igreja Católica na América Latina”, de Giuseppe Ferrari – assinala que o impulso inicial para o nascimento das seitas tem motivação muito diversa.
Há motivos ideais como a convicção de ser depositárias ou transmissoras de mensagens consideradas divinas; motivos ligados ao desejo de dar um significado à própria vida da parte de pessoas que, de outro modo, não se sentiriam realizadas; ou bem por motivos nada nobres como exploração, vontade de poder ou domínio.
As seitas se propagam difundindo a ideia de que dão respostas às diversas necessidades e aspirações do homem contemporâneo. Oferecem o sentido de pertença, identidade, saída do anonimato, afeto, participação e compromisso, segurança, certeza, transcendência, espiritualidade e direção espiritual.
Suas formas de recrutamento são diversas. Em geral, a inclusão do adepto ocorre a partir de uma aproximação previamente estudada. Primeiramente evidenciam-se os aspectos positivos, atrativos e sedutores do grupo. Só depois, quando a pessoa estiver totalmente inserida, deixam-se transparecer os elementos mais controversos.
A abordagem inicial pode ser sentimental e emotiva. As seitas oferecem respostas bonitas e prontas para as perguntas mais variadas; fazem promessas de todo tipo, como apoio econômico, ajuda para conseguir um trabalho ou determinadas vantagens, modelos de sucesso, lucro fácil, curas de enfermidades e problemas físicos, psíquicos ou existenciais.
Uma possível classificação distingue entre: seitas orientais; pseudocristãs; esotéricas e sincretistas; satanistas; difusoras de métodos e escolas; outras doutrinas.
Em outro artigo do estudo preparatório à Conferência de Aparecida – “Causas da deficiente resposta da Igreja ao desafio das seitas ou novos movimentos religiosos: uma análise a partir da teologia pastoral”, de Dr. Juan Daniel Escobar Soriano –, propõe-se uma classificação das seitas.
a) Seitas orientais: nestes grupos predominam as ideias e doutrinas das grandes religiões não cristãs, assim como interpretações fundamentalistas destas religiões. Procedentes de um mundo exótico e atraente, esses grupos pretendem oferecer a paz e a libertação que o homem atual tanto deseja, ainda que se corra o risco do resultado ser apenas aparente ou ilusório. Aqui também se destaca o panteísmo, ao não diferenciar Deus do mundo, ou ao identificar o homem com uma energia cósmica.
Exemplos: Sociedade Internacional para a consciência de Krishna; Missão da Luz Divina, Rajneeshismo, Ananda Marga, Sai Baba, Novos movimentos religiosos ou seitas de origem japonesa.
b) Seitas pseudocristãs: grupos que pretendem se autodesignar Igrejas ou Comunidades Cristãs, mas que não o são. Rompem com aspectos essenciais da fé cristã. São ainda grupos que não apresentam os critérios que o Conselho Mundial das Igrejas aplica para admitir uma Igreja (autonomia, estabilidade, importância numérica, relações com outras Igrejas, além de critérios doutrinais).
Neste grupo estão: Testemunhas de Jeová, os Mórmons ou Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a Associação para a Unificação do Cristianismo Mundial ou Moonismo, A Família (Os Meninos de Deus ou A Família do Amor), a Ciência Cristã.
c) Seitas esotéricas e sincretistas: aplicado às seitas, o termo esotéricas tem o sentido de secreto, oculto, disponível apenas para iniciados. Na doutrina destes grupos aparecem elementos religiosos e pseudorreligiosos. Ademais, caracterizam-se pelo sincretismo, ao mesclar diferentes tipos de ideias e doutrinas.
Alguns grupos representativos são: Rosacruz, Igreja Gnóstica ou Gnósticos, Teosofia, Sudda Dharma Mandalam, Nova Acrópole, Associação Hastinapura, Igreja da Cientologia ou Dianética, Alfa e Ômega, Missão Rama e os Extraterrestres, Nova Era.
d) Satanismo: existem diversas formas de satanismo e seus fins são também variados. Os principais grupos são as seitas satânicas e as seitas luciferianas.
e) Métodos e escolas: ofertam autocontrole, harmonia, descanso, paz, libertação. Eles se propagam através de cursos, conferências, folhetos, livros e revistas. Exemplos: Meditação transcendental; Instituto Arica ou Porta Aberta; Método Silva de Controle Mental e a Revolução Mental.
f) Outras doutrinas: Maçonaria, Fé Bahá’í, Comunidade Silo, Igreja Eletrônica, Espiritismo (diversas formas de espiritismo latino-americano; cultos espiritistas afroamericanos).
Para este artigo, a Aleteia consultou o “Dicionário Enciclopédico das Religiões” (Hugo Schlesinger, Humberto Porto; Petrópolis, Vozes, 1995), o livro “As Seitas Hoje: Novos movimentos religiosos” (José Moraleda; São Paulo, Paulus, 1994), o documento “Seitas e Novos Movimentos Religiosos: elementos para ampliar nossa interpretação e pastoral” (CELAM), os artigos “O avanço das seitas” (Pe. Neno Contran MCCJ, em Revista Pergunte e Responderemos, n. 466, março de 2001) e “O que é uma seita” (Dom Estevão Bettencourt, em Revista Pergunte e Responderemos, n. 417, fevereiro de 1997), os Documentos de Puebla, Santo Domingo e Aparecida, o Discurso de João Paulo II na abertura da Conferência de Santo Domingo e a Mensagem de João Paulo II para o Dia do Migrante de 1990.
Você está acessando como visitante. Cadastre-se ou faça login para enviar comentários, divulgar eventos, etc.

